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15
Ago19

Dina

LAC

Era uma funcionária sempre atarefada e de cara tantas vezes suada e aflita, mas encantadora por isso mesmo. Pela necessidade contínua de provar que se esforçava para fazer bem o trabalho que lhe competia. Há mais de um ano que Vítor ia almoçar ao restaurante onde ela servia à mesa e onde a maioria dos comensais eram funcionários públicos dos serviços localizados nas imediações, e não conseguia definir de outra maneira o empenho, mas também o desnorte dela, quando recebia mais solicitações do que aquelas a que conseguia ocorrer: era algo que, aos seus olhos, a tornava encantadora. Até pela forma como dizia «fónix» quando algum cliente, mas nunca Vítor, se queixava de um cabelo que encontrara no prato que ela lhe servira. «Fónix» era também a expressão que lhe saía da boca quando levava a um cliente um prato diferente do que ele pedira. «Fónix», repetia, de uma maneira surpreendida consigo mesma, sempre que voltava para trás para rectificar o erro cometido.

Vítor já tinha, há muito, adquirido confiança com ela para lhe falar de assuntos que fossem além da ementa do dia. O facto de almoçar sempre sozinho também incentiva à conversa entre os dois. No fundo, tal como ele se sentia atraído pelo empenho dela, também ela se sentia enternecida pela solidão dele. E foi num dia em que o movimento no restaurante era menor, devido à greve da função pública, que Vítor ganhou coragem para a convidar para jantar fora. «Onde?», quis ela saber, sem se mostrar tão surpreendida com o convite como ele antecipara. «Em minha casa», respondeu, não para a fazer sorrir com uma piada, apenas porque não conseguia lembrar-se do nome de mais nenhum restaurante. Na verdade, tirando aqueles onde comia quando se deslocava a algum centro comercial, o restaurante de Dina era o único que ele frequentava. E se o frequentava tão assiduamente não era pela qualidade da água de lavar pratos da canja ou da sopa de nabiças, nem pelo sabor a restos de véspera do empadão ou do bacalhau à Brás, nem pela bebida que lhe era servida após a refeição e que lhe era apresentada como sendo café, que ele via ser tirada numa máquina de café, mas que nunca lhe sabia a nada, apenas a quente. Era só para poder ver Dina a trabalhar que ele frequentava o estabelecimento. Para ver o esforço dela, mas também a sua atrapalhação. Não seria capaz de a considerar tão encantadora, e tão merecedora da sua fidelidade como cliente, se não revelasse essa mistura de esforço e atrapalhação. Se não fizesse soar a palavra “fónix” da maneira espontânea e surpreendida como ela a fazia soar.

No jantar em casa de Vítor, um arroz de pato que ele próprio confecionara e que escolhera por saber que agradava a Dina, ela falou com o à-vontade de quem estava perante um amigo que pretendia ser mais do que isso. Contou-lhe que vivia com duas raparigas num andar perto da Fonte Luminosa desde que chegara da Covilhã, que gostava do trabalho que tinha, apesar de todas as noites regressar a casa sempre exausta, que o emprego anterior dela fora numa cantina universitária, onde quinhentas vezes por dia, cinco dias por semana, desejava bom apetite aos estudantes que servia. Contou-lhe também que o seu nome verdadeiro era mesmo Dina e que, ao contrário do que Vítor pensava, não era o diminutivo de Armandina ou de Leopoldina ou de qualquer outro nome que tivesse caído em desuso, porque já nenhuma mãe traduz o amor que sente pela sua filha e a esperança e os sonhos que tenha em relação ao futuro da filha com um nome que obriga a criança a ser velha desde que nasce. Quanto mais entusiasmada se mostrava a falar sobre si mesma, mais bagos de arroz saltavam para fora do prato. Referiu o dente do siso que tinha de arrancar, e que o doutor Semedo lhe explicara ser daqueles que crescem sem se ver, e que numa escala de zero a vinte, o grau de dificuldade que representava a sua remoção era dezanove. «Quando ele me disse quanto é que levava para o arrancar, caiu-me tudo ao chão», confessou. «Tudo, menos o dente», brincou Vítor. Nem num ambiente mais calmo e intimista o sorriso dela deixava de soar ruidoso e puro, e a sua voz incapaz de espelhar sensualidade. Vítor confirmou, nessa noite, que não havia qualquer artifício nela, apenas uma simplicidade anacrónica e uma confiança absoluta na pessoa que tinha ao seu lado. Quanto mais a ouvia, quanto mais se convencia de que aquilo que noutra mulheres seriam defeitos, nela tornava-se enternecedor, mais Vítor se convencia de que não podia acabar a noite sem a beijar. E que se ela correspondesse, como ele esperava, aquela noite seria a primeira do resto da sua vida.

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2 comentários

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De Novembro a 19.08.2019 às 21:48

Enternecedor, romântico, realista.
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De LAC a 20.08.2019 às 09:04

Obrigado.

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